11.3.08

O teu nome

Achando que nunca mais fosse preciso dizê-lo pensei que assim poderia esquecer. O nome das coisas é dado de acordo com sua função ou sua história. E tudo que é, tem nome. E disto a gente precisa. A segurança de chamar por alguém parece tão simples mas é tão subestimada por nós. Eu não me lembro a primeira vez em que falei seu nome. Nem a última. Não sei que frase eu disse, não sei que entonação usei. Não sei se fui incisiva. Ou se fui encabulada. Mas queria rever isto. Só para dar mais atenção. Queria lembrar do seu rosto, refazer sua fala. Remontar a cena. Ou todas elas em que eu e você estávamos. Não posso mais. Nunca mais.

E existe uma linha que divide a gente. Uma linha invisível e quebradiça. Uma linha horripilante. E para todos. Todos. Ela é idêntica até que se rompa. De um lado as pessoas que já experimentaram o luto; do outro aquelas que sabem que isto existe mas que (felizmente) não sentiram este gosto.

E depois que quebra, nada cola. Nada substituí. Nada terá a mesma cor. Não do jeito que você via antes. Provavelmente agora, um milhão de bêbes nascem pelo mundo. E um outro tanto está indo embora, morrendo. Morrendo e deixando um outro tanto de gente que está parada em algum cantinho repetindo bravamente: não é verdade. Mas sempre é. E por mais que sejam entoados mantras, que sejam orados pai-nossos, que sejam cantados hinos ou que abraços sejam dados. Nada irá dar conta disto. Nada irá lidar com isto. Nada irá florescer dali. Como mágica seu amor, seu querido, seu amigo, seu irmão, seu filho, seus pais irão desaparecer.

E como mágica também dentro de você o sentimento mais genuíno irá aparecer. Falam em saudade, outros em esperança, alguns em amor. E exatamente nesta hora suas pernas irão tremer e você raivosamente perceberá que está aqui. Que não foi enterrado também.

O que não faríamos por mais um momento? O que não daríamos por um toque? Todas as palavras dentro de um dicionário, juntas, não podem exprimir a dor de querer dar continuidade a uma história.

Podemos colocar flores nos túmulos, podemos rezar missas de sétimo dia, um mês, um ano, dois. Podemos escrever cartas que nunca serão postadas. Podemos também ouvir mensagens que não foram apagadas. Podemos vestir o colete que era do outro, podemos assistir fitas com imagens perfeitas, podemos clamar por mensagens espíritas, podemos deitar e sonhar, podemos sim, ir aos mesmos lugares, podemos olhar para as fotos, podemos sentir a presença dos nossos amados. Podemos sobreviver. Mas aquela história, aquela conversa, aquele laço foi desfeito. Interrompido.

E silenciosamente você pede todos os dias que você suporte a ausência. Alguns dias isto será possível. Em outros não. De tempos em tempos, a raiva irá ser maior que sua fé. Mas em outros, você irá fechar os olhos e saberá que a história não continua, mas seu amor sim.


Por Lara Stoque para o João

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

bom retorno... bom te ler aqui de novo. Abraço.

4:54 PM  

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