1.4.07

Dá-lhe caneta e papel que o resto se dará





Eu achei que não sabia mais escrever. Uma angústia maior do que não dar conta de escrever é a de não dar conta de minha vida. Estava tomada disto. Enclausurada em minha própria escolha. Feito criança, chorei ao ver que não tinha todos os brinquedos a mão. Eu pareço ser um caderno antigo de pauta, em que testo obsessivamente minha caligrafia, se ela está redonda, bem escrita, bem treinada, bem perfeitinha. E o meu céu cada dia mais afastado. Só eu e minha descabida pretensão. Tenho uma inclinação áspera e densa para que outros decidam sobre minhas coisas. Eu transfiro toda a minha intensidade para qualquer um que a pegue, mesmo que seja para massacrá-la. Aliás, esta é minha preferida, dar-me ao outro para que ele possa consumir toda a minha insegurança e me provar que sou mesmo inadequada e inapropriada. E toda minha pulsante criatividade há de morrer, assim como eu. O meu remorso é minha persistente dor de cabeça porque não consigo ser eu mesma. Mesmo quando eu quero. Me perdi de mim. E estou aqui escrevendo, rabiscando porque minhas idéias ficam me atormentando. E eu acho que posso lidar contra isso. Mesmo me debatendo e custando-me pedras renais, enjôos, dentes desgastados e dores de cabeça como a de agora. Faço meu testamento e afirmo que não irei deixar de dar vida a minha loucura. O meu melhor está nos textos. E o meu sofrimento também. E toda a minha complexidade fica explícita em cada palavra. E não terei vergonha de vir até aqui. É aqui a minha redenção.


Por Lara Stoque, uma jornalista com bloqueios criativos... que eles sejam tão breves quanto o escorrer de uma lágrima.