Pontoevírgula

Pontoevírgula
Não sou dada a vírgula.Tudo eu quero colocar ponto final. As coisas têm me escapado como não haveria de ser. Ou eu tenho escapado das coisas. Quando vi nos jornais as mulheres de fantasias, gostosas e cheias de sucesso, me irritei. Desejei ser também uma madrinha de bateria. E desejei ser mãe. Desejei fazer mais cursos. Desejei mudar de cidade. Desejei ser menos medíocre, menos egoísta, mais nobre, mais corajosa, mais shakespereana e menos Clarice. Escolhe-se tudo. O amor, o emprego, a família, o futuro. Mas eu queria que tudo fosse reto. As curvas me embrulham o estômago. Enjoei de mim. Naturalmente não posso acreditar em se. Ou em possíveis. A vírgula dá pausa. Não quero. Preciso do sim e do não. Absoluto.
E eu me sinto tão só neste sonho com o ponto final.
Quantas coisas eu preciso e quantas eu desdenho? Quantas eu desprezo só para não ter que me arriscar? Quantas destas eu faço com a loucura necessária? Quanto de ódio é preciso para construir uma guerra? Quanto de amor é preciso para ter um filho? Quanto de dinheiro é preciso para parar de querê-lo? Quanto de amizade é preciso para conversar quando não se tem nenhuma palavra? Quanto de estudo é preciso para melhorar o conhecimento intelectual? Quanto de intuição é preciso para dar entendimento a uma discussão? Quanto de trabalho é preciso para fazer o melhor programa? Quanto de ignorância é preciso para parar de ser tão ignorante? Quantos shows de rock é preciso para extravasar a solidão? Quanto de pai e mãe é preciso para compreender o desespero da frustração? Quanto de bondade é preciso para ver vírgulas nas pessoas? Quanto de riscos posso enfrentar? Quanto de infelicidade é preciso para dar cura ao que incomoda? Quanto de sorte para conquistar bens materiais? Quanto de inveja para ser melhor que o outro? Quanto de ambição é necessário para girar os dias? Quanto de superficialidade para superar o banal? Quanto de mim em tudo pode mudar alguma coisa? Quanto de paciência para agüentar tantas divergências? Quanto de criação e quanto de superstição para acordar e dar tempo? Quanto tempo eu ainda tenho? Quanto?
L.
Não sou dada a vírgula.Tudo eu quero colocar ponto final. As coisas têm me escapado como não haveria de ser. Ou eu tenho escapado das coisas. Quando vi nos jornais as mulheres de fantasias, gostosas e cheias de sucesso, me irritei. Desejei ser também uma madrinha de bateria. E desejei ser mãe. Desejei fazer mais cursos. Desejei mudar de cidade. Desejei ser menos medíocre, menos egoísta, mais nobre, mais corajosa, mais shakespereana e menos Clarice. Escolhe-se tudo. O amor, o emprego, a família, o futuro. Mas eu queria que tudo fosse reto. As curvas me embrulham o estômago. Enjoei de mim. Naturalmente não posso acreditar em se. Ou em possíveis. A vírgula dá pausa. Não quero. Preciso do sim e do não. Absoluto.
E eu me sinto tão só neste sonho com o ponto final.
Quantas coisas eu preciso e quantas eu desdenho? Quantas eu desprezo só para não ter que me arriscar? Quantas destas eu faço com a loucura necessária? Quanto de ódio é preciso para construir uma guerra? Quanto de amor é preciso para ter um filho? Quanto de dinheiro é preciso para parar de querê-lo? Quanto de amizade é preciso para conversar quando não se tem nenhuma palavra? Quanto de estudo é preciso para melhorar o conhecimento intelectual? Quanto de intuição é preciso para dar entendimento a uma discussão? Quanto de trabalho é preciso para fazer o melhor programa? Quanto de ignorância é preciso para parar de ser tão ignorante? Quantos shows de rock é preciso para extravasar a solidão? Quanto de pai e mãe é preciso para compreender o desespero da frustração? Quanto de bondade é preciso para ver vírgulas nas pessoas? Quanto de riscos posso enfrentar? Quanto de infelicidade é preciso para dar cura ao que incomoda? Quanto de sorte para conquistar bens materiais? Quanto de inveja para ser melhor que o outro? Quanto de ambição é necessário para girar os dias? Quanto de superficialidade para superar o banal? Quanto de mim em tudo pode mudar alguma coisa? Quanto de paciência para agüentar tantas divergências? Quanto de criação e quanto de superstição para acordar e dar tempo? Quanto tempo eu ainda tenho? Quanto?
L.

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