20.1.07

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Tem um pesadelo com bêbes. Acorda, seca o cabelo, faz café, passa gloss, escolhe a bolsa que vai usar. Dá um beijo. Começa mais um dia. Vai trabalhar, conversa com as pessoas, sente-se irritada. Esquece de tomar anticoncepcional, lembra dele e pensa se deve mesmo tomar ou se já está na hora... toca o telefone, a dentista, o contador, a amiga, a mãe, a sogra, o marido. Volta para a reunião, decide não falar mais suas opiniões. Em um segundo, começa a falar o que pensa e sugerir coisas. Se arrepende e resolve tomar capuccino. Açúcar ou não? Lembra do dia em que resolveu não ser mais mulher e pensar como os homens, tenta lembrar o que isto significa, não consegue. Manda uma mensagem para alguém abrindo o coração. Acaba a reunião, olha o relógio, não quer almoçar. Tem medo da compulsão alimentar da semana. Lê na agenda que tem mais um aniversário. Vai tomar água e lembra do anticoncepcional, toma ele. Arrepende. Sai com pressa e não acha lugar para estacionar. Fica pensando que precisa de férias. Mas já tirou férias. Olha no retrovisor, se assusta com o volume do seu cabelo. Jura que não vai mais cortar o cabelo. Liga no salão para marcar um horário para cortar o cabelo. Senta para almoçar, decide começar um assunto polêmico, precisa de distração. No meio do assunto, dispersa, pensa se come açúcar ou não. Come, claro. Come de novo. Arrepende-se. Resolve não conversar mais até o fim do dia. O chefe liga é hora de continuar. Mais amigas grávidas, a boa notícia: serão homens. Se emociona e acha que está chegando a sua hora. Volta ao trabalho, abre os e-mails, sente-se agressiva, melhor nem responder. Olha a agenda, dia de treinar. Começa a chover. Vai tomar café. Açúcar ou não. Mil gotas de adoçante, então. Arrepende-se. Vê fotos de celebridade, sente-se pobre, gorda e desarrumada. Começa a responder e-mails, sente-se agoniada, não sabe que roupa vestir no aniversário. Está trabalhando e sente-se bem. Ao rever o trabalho da semana passada, acaba a paz. Exigência, podia ser bem melhor. Frustra-se e acha que precisa se dedicar mais. Resolve voltar a estudar. Decide engravidar. Olha viagens caras para lugares maravilhosos. Manda de novo mensagem afirmando sua dor em simplesmente não saber o que fazer da vida. Toca o telefone, alguém elogia, fica com vergonha e se esconde no banheiro. Não olha no espelho, tem medo. Depois de cinco minutos, sai do banheiro, decidida, avisa que vai chegar mais cedo amanhã. Precisa trabalhar mais. Já passam das sete da noite, vai treinar, odeia as roupas de ginástica, odeia todas as mulheres de roupa de ginástica. Começa a correr. Pensa nas contas, quanto custa um filho? Muda de pensamento, observa os homens, se chateia. São estranhos e esnobes, lamenta pelas amigas solteiras. Volta a pensar nos peitos cheios de leite, na mesma hora passa uma criança linda, sorri para ela. Ela faz careta e emburra. Desiste de ser mãe. Pensa em abrir um negócio, no meio do pensamento, sonha com uma calça jeans nova. O cabelo começa a cair, prende de novo. Transpira muito. Se renova. Acabou o treino, passa na padaria. Compra pão francês. Olha o bolo de chocolate. Compra. Se arrepende. Sente-se só. Chora no carro. Chega em casa, promete organizar as coisas no fim de semana. Liga a Tv, desliga a Tv. Deita, sonha com bêbes. Acorda, lembra que não foi ao aniversário. Sofre por ser relapsa. Faz café. Açúcar ou não?
L.

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Que realidade!!!! Pensei que você só eu...Isso acaba?
Beijo grande.

7:29 AM  
Anonymous Anônimo said...

Perfeito!!!!!!!
escreva mais mais mais mais mais...rsrsrs
hoje ainda nao tem texto novooo!
bjo

2:31 PM  
Blogger Luciana Calábria said...

Ameiiii o texto! Bjs

6:02 AM  
Anonymous Anônimo said...

Adorei!!!
Você é demais mesmo!!!
Beijinhos
Saudades...

4:28 AM  
Blogger Re said...

Eu conheço essa mulher! Não só essa, mas várias...serão gêmeas?

12:04 PM  

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