Cólera

Os poemas não se sustentam, meu esteio já não suporta. A avó admirada também falha. A avó brincalhona também sofre. O encontro entre tudo isso deu num inferno, facilmente me perdi. Já quero ir.
Dizem que o melhor está por vir. Cadê? Será que não passa na minha rua? Será que ele preferiu outros? Será que essa amargura toda é leve? Será que se decide que alguns não merecem. Alguns não precisam. Alguns não entendem.
Cansa a compreensão e cansa o sonho. Cansa ver que a perspectiva não mudou. Cansa tomar os remédios. Cansa abandoná-los. Cansa inventar um novo desejo. Cansa perceber que não mudou. Cansa e magoa.
Opressão não me assusta mais. Tenho tido tanto pouco tempo para o riso. Tenho tido pouco tempo para repensar meus cadernos. Tenho tido tanto choro. Tenho tido tanto de você em mim. Tenho tido menos da vida. Tenho tido menos do mundo. Tenho tido bem mesmo de mim.
Tenho tentado o sim. Tenho tentado a alegria. Tenho tentado a confiança. Tenho tentado as orações. Tenho tentado soltar a agonia. Tenho tentado deprimir menos. Tenho tentado a dignidade do trabalho. Tenho tentado a solidez da calmaria. Tenho tentado o reflexivo. Tenho tentado o papel, a caneta e o word.
Nunca está pronto para seguir. Nunca está pronto para quebrar. Nunca está pronto para construir. Nunca está pronto para refazer. Nunca está pronto para as desculpas. Nunca está pronto para odiar o suficiente. Nunca está pronto para recalcular os sonhos. Nunca está pronto para ser.
Sendo a morte em si o alívio, não posso querê-la. Não quero esse alívio cretino dos perdedores. Não quero a leveza de quem se despede daqui. Não quero o fim porque para mim há muito a se fazer. Muito ainda para entender. Muito para perdoar. Muito para aceitar. Muito para expressar. Muito para desbravar. Muito para me dilacerar. Mais umas vezes. Muitas outras.
L.

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